Racismo. Homofobia. Machismo. Transfobia. Os ataques de ódios contra as minorias são cânceres de nossas sociedades que destroem a ela e a seus membros durante gerações. Ninguém nasce preconceituoso, se transforma. Assim como ninguém nasce pró-direitos humanos, mas aprende a ser.

Não é de hoje que se discute dentro do ambiente empresarial a importância das causas sociais, Kotler em 1988 já fala da relevância das organizações em “Marketing Social: Marketing para organizações que não visam lucro”, sendo hoje não somente uma ação comercial, mas também um intensivo processo de branding (construção de marca). Como exemplo temos a Starbucks que tem a sua filosofia essencialmente construída em cima da aceitação de todas as minorias, valores humanos e responsabilidade social.

Além do extraordinário café, a Starbucks criou uma empresa a partir das ligações humanas, do envolvimento com a comunidade e da celebração das culturas. (Starbucks)

Um exemplo a ser seguido, a Starbucks levou o prêmio da Best Global Green Brands de 2014 em 37ºlugar, isso sem mencionar grandes marcas que são amadas pelos seus consumidores e que ocupam posições em destaque como Dell, IBM, Avon, HP, Coca-Cola e Nestlé. A defesa dos direitos humanos é um processo trabalhoso que exige total empenho da organização e uma estratégia completa no mix de marketing, focarei neste artigo em relação as mídias sociais.

Defender direitos humanos não é trocar a capa do Facebook

Sua empresa resolveu ser pró-direitos humanos, saiba que suas ações deverão ir muito além do que trocar a capa do Facebook com as cores do arco-iris durante a semana da diversidade.

direitos humanos nas mídias sociaisAs minorias também consomem, em 2010 o IBGE estimou a população gay brasileira em 20 milhões com um potencial de compra de R$418,9 milhões, 10% do PIB nacional. As marcas de olho nesse mercado e em busca de uma construção social que gere mais visibilidade para a comunidade estão “começando a sair do armário” gerando campanhas que chamem a atenção deste público. Mas não adianta uma empresa “se assumir” no Facebook ou defender as mulheres e negros e não tomarem isto como parte de seu dia-a-dia. Ser pró-direitos humanos é uma ação que deve ser tomada em conjunto em toda a sua empresa, desde seu mix de marketing até seus stakeholders e funcionários deverão estar alinhados com essa “nova filosofia”.

Se você possui uma organização composta por funcionários machistas e homofóbicos isto será refletido nas suas ações de marketing digital, ambiente onde as informações se propagam em uma velocidade absurda, a ação, comentário ou discussão de um funcionário que não esteja alinhado com as filosofias da empresa poderão gerar uma crise e negativação de todas as ações realizadas nas mídias sociais. O que muitas empresas não conseguem entender é: ao se assumir pró-direitos humanos toda a sua marca carregará estes valores, alguém que não esteja alinhado com isso gerará o efeito contrário desejado. As comunidades das minorias, principalmente nas mídias sociais, são extremamente unidas e estão constantemente trocando informações. Se você não quer entrar de coração e alma na defesa dos direitos humanos, não entre. Não seja “meia boca”, trocar a foto do Facebook e parar suas ações nisso não te tornaram pró-direitos humanos, mas sim uma empresa que apenas deseja conseguir mais likes.

Tenha alguém, ou um time, pró-direitos humanos na sua campanha

Se a criação de publicações e estrategias da sua marca nas mídias sociais é realizada internamente tenha certeza que não somente seu time esteja alinhado com a filosofia empresarial como também tenha, pelo menos, um membro pertencente e militante das minorias. Se você é uma agência de publicidade isso não é somente recomendado como também é essencial. Caso não possua um membro assim em seu time, contrate uma equipe de assessoria e consultoria em ciências sociais e psicologia. A presença destes profissionais é de suma importância pois seus conhecimentos não giram em torno de algo meramente financeiro, mas também como algo humano. As suas ações, em social media ou não, deverão estar alinhadas com a comunidade a qual defende, ou seja, a comunicação de sua marca não somente tem que transferir seus valores como também devem agregar a comunidade.

Como exemplo, temos a recente ação do Carrefour no Facebook que publicou fotos de suas funcionárias transgênero em apoio a comunidade no dia da visibilidade trans comemorada em 29 de Janeiro e conseguiu mais de 21 mil compartilhamentos. Demonstrando não somente que a marca apoia a comunidade nas mídias sociais, mas também as possui como parceiras e funcionárias.

Hoje é o Dia da Visibilidade Trans!Aqui no Carrefour, celebramos a diversidade todos os dias. Além de contarmos com…

Publicado por Carrefour Brasil em Domingo, 29 de janeiro de 2017

A regra do marketing conteúdo ainda é válido, publicar uma foto de um casal homossexual em seu Instagram não acrescentará em nada para a comunidade nem para seus membros, agregue valor em suas publicações como: desconstrução de preconceitos, negação de homofobia ou apoio (e prática) a salários igualitários entre homens e mulheres. Seus conteúdos em mídias sociais deverão andar juntos com as lutas das minorias e dar mais força e visibilidade elas, por isso é de suma importância a presença de membros em seu time que entendam do que se está sendo discutido e levantado em pauta dentro destas comunidades.

Você vai perder mercado e ganhar novos

Este é com certeza o maior medo de todos empresários: “minhas vendas irão cair”. No começo as suas ações em defesa dos direitos humanos irão refletir em um ambiente de perda de mercado de consumidores homofóbicos, machistas e racistas, este público existe e também consome; por isso é tão necessário que a marca e seu mix de marketing esteja alinhado para “tirar” esse público e trazer os novos: gays, mulheres, negros, trans e etc. Se você conseguir criar uma marca humana que não somente apoie a comunidade, mas que agregue valor a ela e apoie suas lutas (inclusive com financiamento e patrocínios a causas de direitos humanos) os resultados virão e suas vendas aumentarão.

direitos humanos nas mídias sociaisO processo da defesa dos direitos humanos nas mídias sociais deverá estar impregnado no seu branding e, como qualquer bom trabalho deste tipo realizado, não está visando somente os lucros, mas uma reflexão social de seus valores e de sua empresa. O aumento das vendas deverá ser uma consequência e não um motivo. Defender as causas humanas é um risco e é trabalhoso, mas além de tudo: é a contribuição para um mundo melhor com menos racismo, homofobia, machismo, transfobia e demais preconceitos. E a sua marca, já está engajada nas causas sociais?

[Referências]

KOTLER, P. Marketing Social. Marketing para organizações que não visam lucro. São Paulo: Atlas, 1988.
LUZZI, Alexandre. Plano de Marketing para micro e pequenas empresas. São Paulo: Atlas, 2001. 2º ed.
PRINGLE, Hamish e THOMPSON, Marjorie. Marketing Social: Marketing para Causas Sociais e a Construção das Marcas. São Paulo: Makron Books, 2000.
ROCHA, Júlio César (org.). Marketing Social. Fortaleza: Ponta, 2001.